Desgraças: dane-se! prefiro sorrir!

Determinada manhã procurei lábios adocicados ao me despedir de um curto sono revigorante, que me devolvera a esperança de sorrir num dia desenhado para a humanidade, e pudesse tomar decisões de coisas que ainda não haviam acontecido. Logo levantei e caminhei em direção ao quarto perfumado, de talco e shampoo infantil, para acarinhar quatro pequenas mãos estáticas e tranquilas, e meus olhos contemplaram os milagres da luz que invadia as frestas e janelas, abrigando e tocando a minha pele sensivelmente.
Mas de repente, lembrei-me da “novela” de Roberto Micheletti e de suas marionetes uniformizadas, e ouvi que em determinado lugar da América Central, um presidente deposto deixaria a Embaixada Brasileira com segurança oferecida pelo novo presidente, que fará algum discurso no Estádio Nacional com a presença de autoridades, em sua maioria sul-americana. Aliás, o novo líder pode garantir isso, e pode indicar sujeitos ao paredão, já que pessoas comprometidas e informadas decidirão sobre seus destinos, ou afagarão os próprios egos do poder de decisão. E quem está preocupado com Tegucigalpa e Zelaya? Ele conseguiu proteção, juntamente com Angélica e Alex, e todos seguem na luta – menos Ana, recém saída do BBB, e aquele rapaz mineiro, que não me lembro o nome, que criou um motivo para investir contra sua ex-esposa, puxando o gatilho no interior de um salão de beleza.
Também alguém decidiu, bem próximo daqui, espancar o filho de uma babá, com pouco mais de um ano de idade, levando-o a traumatismo craniano – bem, ele estava chorando demais não é? – e assim, a sua própria filha foi levada ao conselho tutelar, já que passará alguns anos jogando xadrez com alguém, que não seja ex-promotor, e que tenha matado a própria esposa grávida. E nos sentimos mal, não só por isso, mas porque muitos dos jornais e revistas (refiro-me aos irresponsáveis) que adquiri no último mês, e a televisão – inclusive à cabo – que pago mensalmente, venderam as tragédias e retiraram lágrimas de sangue daqueles que assistiam corpos soterrados num ambiente de entretenimento em Angra dos Reis; de outros corpos soterrados após um intenso tremor no Haiti (isso por causa dos “rituais de macumbaria” que ocorrem por lá, conforme um “sábio, sensível e inteligente” membro da ONU, mas que não diferencia o “on-off” de uma câmera de vídeo!).
Mas tudo bem, o sangue faz bem para outros, e João Paulo II encontrou a chave para a beatificação já que dormia no chão e se flagelava, e isso são “virtudes heroicas” além de ser “venerável”. Assim fizeram a leitura dos seus atos. Que confusão, tento pensar em algo para me acalmar e refletir sobre fatos, não pela “acupuntura” como aquela realizada num garoto por insanidade do pai (e haja agulha!), mas concluo que um bom vinho – não muito caro – pode ser uma boa opção; ou talvez, um ayahuasca para pulverizar tanta pressão, sim, aquele chá “santo-daime”, autorizado por uma resolução e publicado no Diário Oficial da União em cerimônias religiosas ocorridas no Norte do país, devendo ser utilizado por pessoas previamente entrevistadas e que não tenham transtornos mentais ou não sejam usuários de outras drogas. Pensando bem, não me encaixo na permissão de utilização. Logo, ficarei com o vinho mesmo: “o baratinho”.
Voltarei para casa e o saca-rolhas me ajudará ao experimento das frutas vermelhas, chocolate, pimenta e magia misturados numa taça, e beijarei a mesma boca adocicada e apertarei as mesmas quatro mãos, pequenas e delicadas, agora dinâmicas, confiantes e apontando as coisas belas: porque isso nós decidimos ver hoje!

(texto publicado no Jornal de Jundiaí em 07 de fevereiro de 2010)

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